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Postagens

Caridade e violência

Em meio a assaltos, arrastões, balas perdidas, tiroteios, sequestros-relâmpago, tráfico de drogas e crimes de colarinho branco por toda parte, é bastante difícil compreender e praticar a caridade – ampla e irrestrita, como a maioria das religiões prega, aquela sem a qual espíritas e umbandistas acreditam que “não há salvação”. Ainda assim, ou justamente por isso, é importantíssimo pensar sobre o assunto de maneira lúcida, cuidadosa. Essa é a condição para fugir da simplificação tola, da incoerência e, no limite, da pura reprodução do mal.
Vivemos tempos muito difíceis, é certo. Entretanto, é engano pensar que “nunca vivemos tempos tão difíceis”, porque “antigamente a violência não era tanta”, hoje “já não se tem mais respeito por nada” e “os valores estão perdidos”... Nada disso é verdade. Quem diz isso olha só para o presente e se esquece, por exemplo, de que, no Brasil, há pouco mais de 130 anos, era legal e comum açoitar pessoas escravizadas; há 60 ou 50 anos também era comum o cas…
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Sem intimidação

Sou aluno da Unicarioca (campus Rio Comprido). É desse lugar que quero me manifestar sobre as ofensas racistas recém publicadas na internet, sob anonimato, direcionadas à instituição e a um grupo específico de seus alunos, grupo no qual me incluo. O anonimato, aliás, é prática comum entre os covardes – esses, sim, justo motivo para nojo. Preciso, portanto, me apresentar.                 Meu nome é Luciano Carvalho do Nascimento. Eu sou negro, de origem pobre. Sou doutor em Literaturas (UFSC), mestre em Língua Portuguesa (UFRJ) e especialista em Leitura e Produção de Textos (UFF). Há onze anos sou professor da rede pública federal de Ensino Básico, com passagem em pelo menos duas instituições de ensino das mais respeitadas no país. Além de produção acadêmico-científica condizente com minha titulação e atuação, tenho ainda boa experiência em coordenação de projetos sociais ligados à educação de populações em situação de vulnerabilidade social.                 Pois é: sou negro, tenho u…

"Estrelas na terra", monólitos no ar

Já com muito atraso assisti, há poucos dias, “Como estrelas na terra” (do original: Taare Zameen Par. Direção: Aamir Khan. Índia: 2007, 2h 55min.), na íntegra aqui. É um filme essencial. Essencial para o desenvolvimento da Humanidade em todas as pessoas; mas, sobretudo, para a formação de profissionais da Educação. No momento atual de nosso país, ainda mais. Porque só será capaz de “ver e ouvir” “estrelas na terra” quem entender que a Educação não pode continuar a ser um improvável monólito no ar. E é exatamente isso que ela tem sido há séculos; no Brasil, pelo menos.

A história do encontro do menino Ishaan Awasthi com Nikumbh, seu professor de artes, seria apenas mais uma narrativa comovente de dificuldades superadas com esforço e boa vontade se não fosse um traço bastante peculiar: a despeito das aparências, nenhum dos dois é, na realidade, o protagonista da trama. Nela, o personagem principal é o próprio processo ensino-aprendizagem, seus pontos cegos, suas escarpas e paredões, sua …

João e Maria

João sempre foi um bom menino, não deu o menor trabalho aos pais: era educado, gentil, ajudava a cuidar dos irmãos mais novos, ia razoavelmente bem na escola... Chegou aos 17 anos sem nunca ter experimentado álcool, fumo ou qualquer outra droga; também não tinha experimentado ainda a paixão. O primeiro emprego de João foi de balconista na mesma padaria onde ele trabalha até hoje, ainda como balconista, aguardando a aposentadoria (que viria rápido, só faltavam 10 anos, agora ele não sabe como será...). João não bebe, não fuma, nunca usou qualquer outra droga. Nunca se apaixonou. Nunca teve tempo pra essas bobagens.
                Maria é uma boa mulher: boa esposa, boa mãe, boa filha, boa funcionária... Todo mundo gosta muito dela e tem sempre alguém repetindo: “Maria?! Que pessoa boa”! Desde que os meninos, um casal de gêmeos, entraram no colégio, ela acorda todo dia às 4:30h para ter tempo de, antes de sair pra pegar o ônibus das 05: 30h, preparar o café da manhã pro marido e pras …

"BANDEIRA BRANCA, SINAL VERMELHO"

Meu primeiro livro, "Bandeira branca, sinal vermelho", já está disponível em <Clube de autores>. É uma antologia de contos curtos, tratando de questões relacionadas às identidades.
Leia!

Preta, Clarinha

(Um dos contos de "Bandeira branca, sinal vermelho")                 Clarinha não percebeu quando a amiga voltou de mais uma investida mal sucedida a um motorista sozinho num carro parado naquele cruzamento da Avenida Atlântica. Apesar de cotidiana, a frustração não doía menos com o passar do tempo (“será que hoje alguém vai me amar?”). Era nesses momentos que Mellanie, nascida João Roberto, demonstrava sua fragilidade: gargalhando alheia à bigorna que lhe crescia no peito, xingando o motorista a plenos pulmões, ou, o mais frequente no fim das madrugadas, baixando a cabeça, sentando no meio-fio e chorando em silêncio.
               Clarinha nem viu a amiga se enroscar a seus pés, humilhada como um cão. Estava atônita com outro quadro. A poucos metros, amontoadas na calçada, três pessoas dormiam: um homem, uma mulher e uma criança pequena. Aparentemente uma família. Certamente uma família, porque o quadro era bem mais do que apenas familiar. A moça via ali, deitados no chão…

Sobre a GREVE GERAL de 28/04/2017

“Sou funcionário público concursado, não dependo da CLT, não dependo da Previdência Social, essas reformas não me atingem. Essa greve não é um problema meu.”
Ok. Qualquer servidor público poderia pensar desse jeito. Em tese. E só em tese. Porque, na prática, os servidores do Estado do Rio de Janeiro infelizmente já estão vendo que não é bem assim: salários atrasados, direitos desrespeitados, instituições sucateadas e à beira da extinção, insegurança total.
Na prática, as DEformas propostas pelo DESgoverno federal atingem a todos nós. Por isso essa greve é, sim, um problema de todos nós. Um “problema” não: uma CAUSA.
Porque, sem dúvida, o ataque à CLT atingirá a milhões de trabalhadores que, hoje em dia, lutam com cada vez mais dificuldade por uma vida digna. Porque, ainda sem nenhuma dúvida, o ataque à CLT massacrará milhões de desempregados que, hoje em dia, fariam qualquer coisa, se submeteriam às condições de trabalho mais adversas, inclusive as análogas à escravidão, para ter um …