domingo, 30 de outubro de 2016

Respeitem o professor!

Imagem disponível em: <http://static.wixstatic.com/media/62b7c8_50afa328d4d345c6abf72d6fe2954120.jpg>, acesso em 30/10/16.


Sou professor. Quer dizer: estudei e sou pago para ensinar, para declarar publicamente as coisas que aprendi; sou alguém que faz da divulgação daquilo que estudou uma prática, um rito. Ou uma "religião" - na visão dos românticos defensores da tese "magistério é sacerdócio".

É na condição de professor que me vejo aqui, de novo, em pleno exercício do "textão". Porque, sinceramente, dói ver tanta gente repetindo a torto e a direito tanta bobagem sobre "educação", "escola" e, principalmente, sobre "ideologia". Cansei de apanhar quieto.

Não vou ficar plagiando dicionários. Qualquer pessoa com um mínimo de boa vontade e honestidade intelectual procura algum deles antes de abrir a boca para usar uma palavra como se fosse sua íntima. Também não vou bancar o sociólogo - o que não sou, por sorte ou azar. Vou falar nisso da perspectiva que minha formação permite: a de um profissional de educação com boa formação acadêmica na área dos estudos da linguagem e da literatura, e mais de duas décadas de experiência em sala de aula em várias instituições do Brasil.

É desse ponto de vista que afirmo sem medo: acreditar em qualquer coisa que pressuponha a possibilidade de algum tipo de "isenção ideológica" no ambiente escolar só pode ser resultado de ignorância, má vontade, ou das duas coisas juntas. Privilegiando a prática frente à teoria, vamos aos fatos.

Antes mesmo de nascermos, a "ideologia" já impera: parto normal ou cesárea? assistido em casa, por parteira, ou no conforto e segurança de um hospital? nome bíblico ou homenagem a parente? amamentação exclusivamente com leite materno ou vale com outro qualquer? vai logo pra creche ou vai continuar mais tempo em casa, só com a família?

Todas essas são decisões tomadas a partir de visões de mundo e de juízos de valor, ou seja, de "ideologias". Nossas "opiniões", na verdade, são em geral pouco mais do que o produto bruto de um (ou mais) regime(s) de crenças socialmente compartilhadas. Porque não existe lugar fora das ideologias. Repito: não existe lugar fora das ideologias. Elas são lentes que se nos pregam aos olhos (aos ouvidos, ao nariz, à língua e à pele também, basta buscar os devidos correspondentes metafóricos) e que se substituem instantaneamente bastante à nossa revelia. Relativizo a afirmação porque, é lógico, as experiências pessoais deliberadas (o quê e quanto estudamos, p.e.) também interferem na aproximação e na fixação dessas "lentes".

Assim, quando um casal vai ter um bebê e prefere a cesariana, essa escolha é modulada  por uma série de informações (adquiridas formalmente ou não) que em boa parte das vezes se sobrepõe à real indicação clínica desse procedimento. Pode parecer coisa pouca, mas profissionais sérios têm se dedicado a estudar a abrangência dos efeitos dessa escolha, tanto sobre a  vida do bebê quanto sobre a vida de milhões de pessoas que sequer o conhecem, mas que são potencialmente prejudicadas pela oneração do sistema público de saúde advinda da enxurrada anual de cesarianas pagas pelo SUS no Brasil.

Dar nome ao recém-nascido também é uma questão atravessada por ideologias. Todo mundo conhece alguém que tem nome bíblico porque os pais eram religiosos, ou que foi batizado com o nome do avô, da avó ou de uma heroica tia libanesa que constituiu fortuna vendendo esfirra em quermesse. Assim foi que uma vez dei aulas para um Nabucodonosor no Ensino Fundamental, e todo ano tenho que lidar com alguns pares de Juninhos e Netinhos.

Não existe lugar fora das ideologias. Muito menos a escola! Por isso o natimorto projeto "Escola Sem Partido" é mais que uma falácia, mais que uma desonestidade terminológica (por associar "partido" unicamente às "ideologias de esquerda", como se só as organizações políticas ditas de esquerda promovessem suas ideologias). Uma escola sem ideologia(s) é muito mais que isso tudo; uma "escola sem partido" [sic] é uma impossibilidade epistemológica.

Não há escolas religiosas isentas do pressuposto da existência de um Deus; não há escolas militares sem a moldura (mesmo esmaecida) da guerra; não existe escola progressista sem o debate sobre a luta de classes, ou sobre a natureza ultradinâmica dos processos identitários; não existe escola técnica livre do espectro da preparação para o mercado de trabalho; seria absurda uma faculdade de arquitetura que se dispensasse de cultuar o Belo (não o pagodeiro, é claro!)... Enfim: a lista é infinita!

Infelizmente, em muitas escolas militares - onde tenho maior experiência - ainda se acredita muito na tal "isenção ideológica". Ledo engano.

Um exemplo simples: o apuro no vestir-se, a austeridade, a virilidade, o denodo... todos esses caracteres tão cultivados pelas Forças Armadas brasileiras são cotidianamente inoculados na mente das crianças, adolescentes e jovens que estudam em escolas militares por todo o país. São caracteres louváveis e motivo de orgulho para nosso povo e para os professores dessas instituições, sem dúvida. E, obviamente, a valorização desses elementos é uma questão ideológica. Não há nada de maléfico imanente a isso, pelo contrário. Entretanto, como qualquer outra configuração ideológica, esse conjunto de valores também é passível de arguição. 

Para ficar só num ponto: é bastante recente nas Forças Armadas a aceitação de alunos com necessidades especiais. Até há pouco tempo se defendia a tese de que a atividade militar era incompatível com elas - comumente identificadas apenas com as deficiências físicas. Por isso certamente ainda são poucas as instituições militares de ensino adeptas de estratégias de Educação Inclusiva (promotoras da adaptação de espaços e de currículos, por exemplo). Falta a essas escolas a acessibilidade, faltam profissionais capacitados etc... e nada disso é fruto de má vontade dos gestores, que fique claro. É, antes, simplesmente, uma questão de ideologia.

Pois bem. Essa ideologia (a crença de que a atividade militar não combina com as "necessidades especiais") se sustenta gostosamente na valorização quase absoluta do tratamento "igualitário", "meritocrático": "o regulamento é o mesmo para todos"; "o que vale para um vale para todos"; "todos têm as mesmas oportunidades", e por aí vai. À primeira vista isso parece justo e bom, eu sei, mas não é bem assim que a banda toca. Porque a tal "meritocracia" ("só os melhores/ mais adaptados sobrevivem") sempre escorrega no mesmo ponto: igualdade não é equanimidade. Ninguém é igual a ninguém, características e experiências individuais fazem muita diferença e negligenciar isso sempre é danoso.

Um dos danos mais alarmantes desse engano é o fato (pelo menos a probabilidade muitíssimo factual, uma vez que não existem pesquisas que comprovem essa hipótese) é o fato, eu dizia, de provavelmente todos os anos haver estudantes com altas habilidades cognitivas entre aqueles alunos que são desligados de escolas militares (de Ensino Básico, Técnico ou Superior) por não se adaptarem à vida (leia-se: à ideologia) da caserna. Isso mesmo: não tenho números (aliás, creio que eles sequer tenham sido alguma vez colhidos), mas sei, por ver e por ouvir falar, de alunos inteligentíssimos (os vulgarmente conhecidos como "superdotados") que são desligados dessas escolas por não conseguirem lidar com os exercícios físicos, ou por serem supostamente frágeis do ponto de vista emocional, ou apenas por serem tidos como "lerdos" (por favor, leitor: não considere apenas a gíria! Em caso de dúvida, não se acanhe: busque um dicionário!). Na verdade, pessoas com altas habilidades também têm "necessidades especiais", quer dizer: não precisam de tratamento "igual", mas, sim, "equânime". Esse tratamento também se traduz em adaptações curriculares, ou seja: em "Educação Inclusiva". Muitas vezes as escolas de excelência - em geral, não só as militares - falham com essas pessoas. E, considerando o grau de dificuldade do processo de seleção para o ingresso nessas escolas, é mesmo de se supor que a todos os anos algumas "mentes brilhantes" sejam excluídas dessas instituições de ensino país afora.

Trocando em miúdos, parte da mesma ideologia que sustenta as Forças Armadas e nos enche a todos de orgulho e confiança (a tal "meritocracia"), é aquilo que muitas vezes ainda exclui de seus quadros não só os deficientes físicos, mas os super-eficientes intelectuais, pessoas que, integradas, seriam capazes de alavancar as próprias Forças Armadas do Brasil a patamares de desenvolvimento tecnológico inimagináveis! Difícil aceitar isso, não?

Pois é. Como eu disse antes, tem muita gente ignorante por aí dando palpite sobre o que não conhece. Educação é coisa muito delicada e séria. Envolve a família e o Estado, é certo!, mas não pode prescindir do professor. Absolutamente. Não há lugar fora das ideologias. Elas não são coisas apenas de comunistas, socialistas, petistas, chavistas, lulistas e outros "petralhas". São também as ideologias que explicam a existência das bancadas (as ruralistas, as evangélicas, as ligadas aos planos de saúde ou aos banqueiros...), das federações (o pato da Fiesp não me deixa mentir), das associações... e dos partidos políticos também, é claro. Não há lugar fora das ideologias. Tampouco escolas.

Então, para terminar, convido as pessoas sincera e honestamente interessadas na reflexão sobre assuntos relativos à Educação Escolar a uma experiência civilizatória: informem-se. Com seriedade. É deprimente ver pais (bem intencionados, mas mal informados) se sublevando contra professores que estão justamente exercendo sua profissão com toda dignidade. Um professor, se exerce sua profissão com dignidade, não emite "opiniões": ele transmite conhecimento, fala daquilo sobre o que estudou, pesquisou... Por favor: respeitem-nos.

Senão por quem somos e pelo que fazemos, pelo bem que todos, familiares e professores, desejamos às pessoas em idade escolar (nossos filhos, sobrinhos, netos...). Sempre haverá discordâncias, é certo. Elas são essenciais à vida na escola. Entretanto, também é essencial ter bom senso; e o bom senso diz que há discussões que precisam partir de pressupostos já inegáveis em pleno século XXI. Um exemplo desses pressupostos inegáveis? A disseminação ostensiva da vergonhosa prática de violência contra a mulher em nosso país.

Qualquer pessoa pode desejar negar a "luta de classes", qualquer um pode defender esse ou aquele modo de produção... mas, por favor!, não cabe mais negar "a persistência da violência contra a mulher no Brasil" (o tema para redação do Exame Nacional do Ensino Médio em 2015). Não cabe mais negar isso porque as pesquisas, os números, as milhares de vítimas (fatais ou não) dessa violência não nos permitem mais negar isso. Não cabe negar isso também porque, na realidade, no frigir dos ovos, a violência contra a mulher nos vitimiza a todos: senão na materialidade de um evento violento já ocorrido, no terror paralisante da iminência de que nossas mães, nossas irmãs, nossas esposas, nossas filhas possam estar sendo violentadas agora mesmo, enquanto eu escrevo ou enquanto você me lê. Não é retórica: desde que você começou a ler esse texto, pelo menos 5 mulheres foram espancadas no Brasil.

É certo haver quem ganhe com o silenciamento da discussão sobre a "luta de classes"; é perversamente lógico que interesse a alguns grupos a interdição do debate sobre as identidades raciais ou de gênero. Mas a quem proveitaria negar a reflexão sobre a violência contra a mulher, seja qual for o nome que se dê a tal "fenômeno" ("cultura do assédio", "cultura do estupro", ou o que seja)? Mais especificamente: que pai, que mãe, que responsável por pessoa em idade escolar pode achar adequado a escola manter crianças e adolescentes ignorantes quanto à necessidade de se combater, de todas as maneiras possíveis, a agressão física, verbal e/ou moral contra a mulher? Respondo: calar essa discussão não interessa a ninguém. E, chovendo no molhado, essa discussão também é atravessada pelas ideologias...

Por isso, repito o convite a quem deseja refletir sobre educação, escola e ideologia: informe-se.


E respeite o professor.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Mal querer






A boca que vejo
não me beija
se só bem me quer.
Querer bem é bem pouco
prum bom beijo
 - louco...

(logo logo longo
licorino lustro latejante)

Querer bem é bem pouco.
Prum bom beijo
é preciso um quê
de mal querer:
de mal querer esperar,
mal querer entender,
mal querer resistir,
mal querer convencer
do óbvio:

que não tem mal na gente
só querer.

domingo, 13 de setembro de 2015

"Fazer amor"... "ou não".

       


          "Fazer amor" só faz realmente sentido em manhãs chuvosas e mais ou menos frias de domingo.
       É claro que é possível e (com alguma sorte) muito bom manter relações sexuais, transar em quaisquer outros dias e horários. Não nego, em absoluto, as delícias que noites quentes e convulsas de sextas ou sábados podem reservar, nem o êxtase instantâneo que um corre-corre em horário comercial é capaz de promover - sobretudo se no intervalo do almoço de uma segunda-feira armagedônica, por exemplo. Não nego o potencial desses prazeres, repito. Mas afirmo: momentos assim não se comparam ao "fazer amor". "Fazer amor" só é literalmente possível na moldura de uma manhã chuvosa e temperada de domingo, quando dia e noite se aconchegam em finos lençóis de névoa úmida e fria, e até a luz do sol reluta em se apartar das ventosas felpudas da penumbra, tímida.
        Nessas manhãs perfeitas para o amor ser feito, frio e chuva não são intensos. A chuva é só suficiente para, com seu gotejar contínuo, mas discreto, abafar toda confusão de sons mundo afora. Nada de idílicos cantares de passarinhos ou crepitar de lareiras hollywoodianas; basta a companhia líquida e certa de um chuvisco insistente, como um temporal borrifado a conta-gotas. O frio, por sua  vez, não chega a constranger a nudez total (sim, porque só se "faz amor", de verdade, completamente nu). A temperatura tem que estar a ponto de, estando-se nu, se sentir frio, e então buscar, sob um fino lençol, o calor do ser amado, e suar no seu abraço, e derreter-se entre suas coxas... pra depois voltar a se arrepiar (de frio?) e recomeçar tudo de novo...
        Essas são, enfim, as condições essenciais para efetivamente "fazer amor". Qualquer coisa diferente disso é, no máximo, sexo - a despeito de, mesmo na ausência de tais condições, ele poder vir a ser muito bom, às vezes até ótimo, inclusive ("fenomenal", jamais! "fenomenal" só o amor feito nas manhãs chuvosas e mais ou menos frias de domingo é)!
           Pode parecer romantismo, mas não se trata disso. Na realidade, é uma visão até antirromântica, porque, por um lado, despreza tanto a alegada autossuficiência do sentimento abstrato quanto a falaciosa solidez produtiva de laços afetivos prévios ou aspirantes a perenes; e, por outro lado, toma como pressuposto único o fato incontestável de que o "amor" depende, sim, de agentes externos a ele mesmo para "ser feito", mas é, paradoxal e intrinsecamente, uma construção fortuita, contínua e circunstancial.
          Logo, não falo, obviamente, do "amor" etéreo, diáfano, incorpóreo e, sob todos os aspectos, platônico (porque irrealizável), aquele amor com que a maioria das pessoas parece sonhar e cuja inexistência factual "mata mais que peixeira de baiano". Falo, sim, do amor humano, carnal, latejante, molhado, viscoso, vivo e, portanto, real e transcendente. Esse, sem dúvida muito melhor que o outro, tem que ser feito, construído, graças! E demanda talento para fazê-lo; é coisa de tato e toque, de trama e tempo.
          É coisa de tato e toque porque, pra fazer esse amor, tem que se ter, em igual medida, delicadeza e rudeza: a delicadeza de contornar, e a rudeza de conter; a rudeza de submeter, e a delicadeza de se entregar... a delicada rudeza de, num momento mágico, se deixar engolir.
          Fazer amor assim é coisa de trama e tempo porque é elaboração conjunta que envolve mútuos desejos e quereres. Envolve desejar bem, desejar ter e ser para outro (com quem se está fazendo o amor) todo o amor que se pode ter. Envolve querer muito, querer tudo, tudo, cada milímetro; mas sem pressa, querendo querer, querendo se unir, se misturar, se confundir... querendo entrar por um lado e não sair por outro, mas ficar ali dentro, conhecendo-o do avesso, de ponta a cabeça, de dentro pra fora, de fora pra dentro...  
          Fazer amor assim (com tato e toque, com trama e tempo) não combina com malabarismos, com pseudo-atletismos, nem com demonstrações de força ou poder. Combina, sim, com beijo de língua, com abraço colado, com aperto. É que, como já falei, esse amor (que se constrói, mas nunca se acaba) só se faz na moldura de uma manhã chuvosa e mais ou menos fria de domingo, quando dia e noite teimam em se confundir, luz e sombra se misturam, calor e frio se atiçam e se motivam. Num tempo-espaço desses, o amor se produz por osmose. Melhor: por fusão, não por fissão atômica: começa nos corpos, culmina no cosmos.
           Afinal, se é verdade o que dizem, foi numa manhã fria, chuvosa e cinzenta de domingo, como a de hoje, que Deus se inspirou e começou a fazer o mundo.
               


P.s.: o mais perfeito do amor feito numa manhã chuvosa e mais ou menos fria de domingo é que não se pode planejá-lo... ele simplesmente acontece. "Ou não" (Apud VELOSO, Caetano).          


sábado, 27 de junho de 2015

"PRIMEIRO MUNDO" é outro papo

            


   
          Eu, Luciano Nascimento, sou heterossexual. E, embora eu não seja rico, seria cinismo de minha parte dizer que sou pobre. Portanto, da discriminação de gênero e da econômica estou mais ou menos livre. Mais ou menos porque, claro, eu ainda sou um fodido perto da maior parte da galerinha que frequenta Jóquei Clube em dia de Grande Prêmio Brasil de Turfe, por exemplo. Por outro lado, sou preto, baixo, tô ostentando uma barriguinha (que vive querendo deixar de ser diminutiva), uso óculos, não curto esporte nenhum, bebo um pouco e eventualmente fumo charuto. Ah!, importante: ou sulamericano. Por que esse inventário meio aleatório? Porque, exatamente como todo mundo, eu ser ou não ser vítima de preconceito e discriminação é algo que não depende de mim, mas, sim, de quem me olha. É quem me olha que me aponta “defeitos”; defeitos que estão na visão dele ou dela, claro! Repito: não há nada de errado (nem de necessariamente certo) em mim; o problema está no valor que atribuem ao que sou.
          É assim que o preconceito e a discriminação funcionam: numa dada dinâmica de forças, os atributos (naturais ou adquiridos) do mais forte passam a valer como parâmetro geral. É a tal “ideologia” funcionando. Aí já viu: os bons e certos são os “iguais” ao parâmetro, ao passo que, quanto mais “diferente”, quanto mais distante do modelo imposto, mais alegadamente mau e errado se é. Essa dinâmica de forças é tão eficaz que mesmo entre os oprimidos há quem divulgue e defenda a ideologia – a coleção de parâmetros – do opressor. Aliás, dizem que foi a Simone de Beauvoir que disse: “o dominador não seria tão forte se não contasse com a ajuda dos dominados”. Não sei se foi ela, não chequei, mas concordo com a afirmação, sem ressalvas.
           Por isso, pra mim é muito absurdo ver alguns comentários hoje na minha TL. Tem um monte de mulher, de preto, de pobre e de evangélico se manifestando contra as fotinhas coloridas que estão inundando o FB. Cara, é surreal!!
A Mulher (toda e qualquer uma! tô generalizando mesmo, falando do gênero!!) apanha do homem, é tratada como mercadoria, é desrespeitada todo dia, toda hora, empurram na cabeça dela desde o berço que ela é um ser iluminado porque tem “o dom da maternidade” (entenda-se: “filhota, fica com ‘o Juninho’ pra eu ir beber com os amigos do futebol, tá?”), enfim, sacaneiam a mulher 24 horas por dia, e, ainda assim, vem uma criatura (uma mulher), querer dizer que colorir a foto é “modinha”, “é frescura”, ou “tem criança passando fome, e isso é mais importante do que o direito de gay se casar”. Criatura, por favor: entra na briga pelas crianças famintas, pelos gays, pelos negros, pelos palestinos, e por você também, Mmulher! Sabe por quê? Porque estamos todos na mesma canoa furada. Há séculos constantemente furada por meia dúzia de homens brancos misóginos homofóbicos protestantes europeus (digite “WASP” no google e comprove), só para nos manterem preocupados em tapar o buraco enquanto eles se divertem.
Outros que merecem meu “recadinho do coração”: uns dois ou três negros amigos meus que me vieram com babaquices tipo “Adão e Eva, não Adão e Ivo”. Como disse um ex-aluno: deixa de ser fiscal de cu alheio, porra!! Há cinquenta anos, negão, você daria graças a Deus por uma campanha semelhante em seu favor, porque até os anos 60, nos EUA, os negros sequer podiam passar pelas mesmas portas (literalmente falando) que os brancos, não podiam usar os mesmos bebedouros, nem sentar nos mesmos bancos no transporte público. Há apenas 50 anos, negão, quem era legal e oficialmente tratado como diferente e sem direitos era você, criança! Então, se liga: o direito que hoje se reconhece e comemora não é em nada diferente daquele que, até o outro dia, você também não tinha (e, na prática, ainda não tem, como ainda vai continuar acontecendo com os gays por um tempo): o direito de ser, de existir e ser tão respeitado quanto qualquer outra pessoa. Então, repito: entra na briga pelas crianças famintas, pelos gays, pelas mulheres, pelos palestinos, e por você também, negão! Sabe por quê? Porque estamos todos no mesmo barco!
O mesmo que falei para mulheres e negros vale para os pobres que passeiam por aqui. Não vou repetir.
Mas é um pouquinho diferente no caso dos religiosos fundamentalistas. É: também tem gente assim na minha TL. Pra vocês tenho uma informação privilegiada e uma revelação bombástica. A informação privilegiada é a seguinte: tá nos evangelhos que J. Cristo teria dito que o maior mandamento da Lei de Deus é: “Ama ao próximo como a ti mesmo”. Então, car@ amig@ fundamentalista: se você acha que tá melhor com “O Filho do Homem” só porque você vai à igreja duas ou três vezes por semana e decorou meia dúzia de citações da bíblia, #fikdik: sua casa vai cair. J. Cristo quer mesmo é que você acolha igualmente bem a todos. A todos. Mas falta ainda a revelação bombástica: não existe comprovação científica da existência de Deus. Logo, ainda que possivelmente tenha existido um tal nazareno chamado Jesus, filho de Maria e blá-blá-blá-blá..., até hoje não se provou que esse camarada tenha sido mais filho de Deus que eu ou você. Sabe por quê? Porque não se provou que Deus exista! Alôôôu!! A única coisa que, sem dúvida, faz J. Cristo melhor que nós é a mensagem dele. Aliás, a mensagem que creditam a ele, né? Porque ele também não escreveu nada.
Diante de fatos tão incontornáveis, sobra o seguinte “““argumento””” (que certamente você, fundamentalista que chegou até aqui, se é que você existe, já usou): “Não preciso de comprovação científica para acreditar em Deus. Deus é uma evidência e A Verdade está na bíblia [todinha psicografada, né, criatura? Rsrsrsrrsrsrs]”. Pois bem. Se você pensa assim, quero surpreendê-lo. Eu concordo com você. Quer dizer, tipo assim: eu também acredito em Deus, em Jesus e em sua mensagem etc..., mas acredito também em Zambi, em Oxalá, em Xangô – Kaô Kabeciele, meu pai –, em Iansã – Eparrêi, minha mãe! – etc..., e em Allan Kardec, em Buda e no Dalai Lama. E tem mais: acho que quem busca a “necessária comprovação científica” de tudo (como eu faço, às vezes) também tem seu próprio “deus”: a Ciência. É nela que esse outro tipo de crente fundamentalista crê, concorda? Bingo!!! A-hááá!!!
Bem, eu acredito em Deus mas não perco de vista que minha crença é só isso: uma crença minha. Ela não é melhor nem mais acertada que nenhuma outra crença; ela é minha e apenas minha, não precisa ser compartilhada nem acatada por ninguém. Até porque eu estudei um pouquinho de História e sei que, durante séculos, os cristãos foram massacrados pelos pagãos, apenas por serem cristãos... depois a cristã Igreja Católica mesma queimou nas fogueiras da sua “Santa Inquisição” milhares de outros também cristãos, mas protestantes... Ou seja, quem acredita em J. Cristo já foi, em vários momentos, minoria – tanto absoluta (em termos demográficos), quanto ideológica (no que diz respeito à representatividade nas instâncias de poder). Então, se você é cristão/ religioso e está indignado com a sua TL colorida, vou desenhar pra você: 1) J.C. falou que o maior mandamento era “Amar ao próximo como a si mesmo”, isso é o contrário de julgar os outros e de jogar pedras (reais ou metafóricas) nas pessoas; 2) se você se comporta como estilingue, esquece que já foi vidraça, e por um bom tempo! e 3) não existe cristianismo que concorde com o preconceito e a discriminação.
Mas se tudo que falei ainda não te convenceu de que o preconceito e a discriminação são um problema exclusivo de quem olha, se, mesmo depois de tudo isso que falei, você (mulher, negão, fundamentalista etc...), meu/minha amig@ brasileir@, ainda acha que ser gay é “feio”, é “errado”, ou que o gay “pode até ser, mas não precisa escancarar”, vou te fazer uma proposta: compra uma passagem e vai pra Paris, pra Londres ou Berlim... mora lá durante um tempo; pede emprego por lá; tenta ser tratado como um igual (aos franceses, ingleses ou alemães). Você certamente vai se surpreender. Ou não... se você lembra do Jean Charles...
“PRIMEIRO MUNDO” é outro papo.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Agora é José!




A festa acabou:
o escravo não veio
a mucama não veio
o palhaço não veio
o silêncio gritou
o crioulo falou
a bola furou
o circo partiu
o pão velho mofou
o antigo bolo – a crescer e então ser dividido –
solou
e tudo parou e tudo ruiu e tudo mudou!
Agora é José!

Nem se você gritasse?
Nem se você gemesse?
Nem se você tocasse a valsa vienense?
Não.
Agora é José!

José que tem dente
José que não mente
José que é gente
que sente, potente,
que é inteligente
e afinal entende
o papel de mané
indigente antes pregado à sua testa:
não lhe presta, não lhe rende, só o vende
barato. Chega!
Agora é José!

José orgulhoso
José altivo
José só de si cativo
cioso e redivivo
Moto-contínuo progresso
impresso no rosto liso,
sereno ou teso
de todo e cada ex-qualquer-um que
hoje bate no peito e diz:

Agora é José!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Entre sem bater


Crédito da imagem: www.facebook.com/quebrandootabu


Sou um professor. Sobretudo – mas não só – por isso, eu também me sinto violentado pelo governo paranaense. Violentado, reajo.

Sou de Letras; não tenho formação acadêmica em Ciências Sociais, ou em Ciência Política, nem em História... Mas sempre tive muitos bons professores, tanto nos colégios por que passei, quanto nas várias instituições de ensino superior de que fui aluno. Além disso, já há alguns anos posso dizer, sem medo, que tenho a amizade e a consideração de alguns dos melhores professores (pesquisadores e/ou profissionais da Educação em geral, enfim) do país, espalhados por instituições como CPII, CMRJ, CEFET, Uerj, UFF, UFRJ, UFSC, UFFS, UFG, UFSM, UFMG, UFU, PUC-Rio, entre outras. Arrisco-me a afirmar, também sem medo, que esta minha reação – que, em grande medida, só é possível graças ao que aprendi com esses amigos – traz em si coisas com as quais eles concordarão.

Sou alguém a quem ensinaram a ler. “Ler” numa acepção que vai muito além da decodificação dos sinais convencionados da escrita. A “leitura” pra mim (e para muita gente muito melhor que eu por aí) é um processo interativo que implica a proatividade do sujeito leitor na articulação de uma série de procedimentos e de conhecimentos que ultrapassam em muito a já nada simples decodificação linguística. “Ler” demanda conhecimento de mundo (histórico, cultural e social), por exemplo. A título de exemplo, é relativamente fácil declinar, aqui, parte considerável do meu “conhecimento de mundo”: brasileiro, de origem pobre, negro e na casa dos 40 anos, vi à minha volta muita miséria, muita ignorância, muita discriminação e muito preconceito. Acima de todas as coisas, ainda hoje vivo na pele os efeitos perversos da mais absoluta degenerescência planejada como política de Estado: meu país planejou pra mim (e para todos os brasileiros com fenótipo e origem semelhantes) o subemprego, a marginalidade e aquela ignorância desdentada e sorridente que estampava a cara dos “geraldinos”, mais do que na dos “arquibaldos”, no tempo em que “o Maraca” ainda “era nosso” [sic].

Sou, entretanto, alguém que frustrou os planos que meu país tinha para mim. Por quê? Inteligência? Definitivamente não. Por pura sorte. Não sou um subempregado, não sou um marginal, estou bastante longe de ser um absoluto ignorante. Por causa dos bons professores que tive, por causa dos ótimos professores meus amigos que tenho. Foram eles que me ensinaram a ler e a entender que, quando a polícia bate em professores, é o Estado que está pisando o broto da única, repito: a única oportunidade que milhões de pessoas têm de um dia deixarem de ser pobres e “marginais” (sim, “marginais” são aqueles postos à margem do bem e do bom que a sociedade tem ou produz). Quando o Estado massacra professores, ele tenta assassinar a única oportunidade que milhões de pessoas têm de um dia deixarem de ser ignorantes. E é claro que esse assassinato interessa a alguém.

Sou um tanto cético, então. Não acredito que o governo do Paraná de fato se entenda fazendo o Bem quando reprime daquela forma a manifestação legítima e democrática do descontentamento de meus colegas professores. Não acredito que o governador Beto Richa seja um democrata, nem um administrador público probo e bem intencionado, muito menos um homem de visão, como é de se esperar de um político. Não creio que ele mereça estar onde está, tampouco que a população paranaense mereça tê-lo no comando do Executivo estatual. Não consigo me convencer de que quem ainda defende a truculência dos militares naquela ação (e em outras similares) não nutra, lá no fundo da alma, algum resquício inconsciente do sadismo do torturador que se acredita inimputável, imune à Justiça e imbuído de algum poder “justiceiro” sobre-humano, quiçá diabólico. Não concebo quem se afaste um milímetro da irremediável imbecilidade total e, ainda assim, ache justo e merecido o massacre dos professores paranaenses em praça pública.

Sou muito otimista também, no entanto. Tenho certeza de que, se essa, infelizmente, não foi a primeira vez que os colegas do Paraná se sacrificaram em nome do que acreditam, tampouco terá sido a última. Trago comigo a esperança de que muitos outros colegas, professores brasileiros, de todo o país, também saberão, a partir de agora e já com atraso, individualmente e/ou em grupo, demonstrar sua solidariedade a nossos pares alvejados, espancados, presos, mas jamais calados. Estou convencido de que nosso país está mudando muito e muito rápido, e essa mudança em grande medida se deve a nós, professores; nós que professamos nossas crenças, lutamos, apanhamos e morremos por elas um pouco por dia. Ou muito todo dia, porque desde quinta todos nós morremos bastante mais...

Sou professor, enfim. Sou uma dessas pessoas que escolhem por profissão professar publicamente as próprias crenças. Sou uma dessas pessoas que acredita ser sempre possível tornar as pessoas e o mundo melhores. Sou assim, e esta é, por enquanto, minha maneira de entrar nessa discussão, na praça de guerra (literal e político-ideológica) em que nos lançou o atentado comandado pelo governo do Paraná contra seus professores. Certamente há outras maneiras de entrar nessa discussão. Quem quiser, fica o convite: fique à vontade.

Só, por favor, entre sem bater.



domingo, 2 de fevereiro de 2014

Recadinho do andar de cima


Peço perdão antecipadamente àqueles que por acaso se sentirem agredidos ou nauseados com o apelo relativamente escatológico do meu argumento. Vou tentar compensar isso com uma também relativa formalidade linguístico-textual, um certo rebuscamento que, longe de ser índice de pedantismo, só pretende mesmo despistar um pouco os mais preguiçosos e/ou menos inteligentes.

Feito esse introito pouco convencional, mas muito útil aos meus propósitos argumentativos, digo a que venho: falar de novo da polêmica chata e anacrônica (no sentido convencional, não naquele que a filosofia contemporânea emprestou ao termo) em torno do tema da homossexualidade, controvérsia hipertrofiada no Brasil das últimas horas por conta do beijo de Félix e Nico no capítulo final da novela “Amor à vida”, da Rede Globo.

Eu poderia falar da miopia daqueles que, colocando em foco apenas o beijo entre aqueles dois personagens, se esquecem, por exemplo, do momento (isso mesmo: não foi um “happy end”, foi apenas um momento, e só sendo muito otimista para supor que a ficção sugeriu ali que tudo se resolve na vida com uma declaração de amor, por mais sincera que ela seja), as pessoas se esquecem, eu dizia, do instante de reconciliação entre pai e filho na cena final da trama. Também não vou me referir ao roteiro possivelmente pouco original da novela. Falar nisso me exigiria uma devoção didático-pedagógica que não tenho. Eu teria que lembrar que o recurso a clichês e fórmulas prontas é prática imanente à arte (Aristóteles já apontava isso em sua “Arte Retórica e Arte Poética”). As coincidências entre Virgílio e Homero, por exemplo, não são casuais; o grande escritor realista português Eça de Queirós também assumia sem problemas sua capacidade de “recriação”, e por aí vai. Entretanto, como em geral as pessoas costumam se abraçar à sua própria mediocridade, e se negam a considerar a sério algo que abale as bases voláteis de suas improváveis convicções, não vou arriscar perder meu tempo cometendo a insensatez de arremessar aljôfares a suídeos. Prefiro continuar conversando com quem já tenha se enxergado tábula rasa, como eu.

E é justamente por ser tábula rasa que minha argumentação só pode ser muito trivial. Volto a pedir: que me desculpem aqueles que têm o estômago mais suscetível.

Lá vou eu: se, inadvertidamente, alguém descalço pisa em excrementos (de cão, gato, boi, gente, tanto faz...), o asco é uma sensação imediata. Estou certo? A atitude seguinte é, quase sempre, procurar algum lugar para lavar o pé, desinfetá-lo, e depois tentar esquecer o ocorrido o mais rápido possível. Se o membro “atingido” pela fétida substância for uma das mãos, ou ambas, então, pior. A visão de dedos humanos maculados por resquícios gastrointestinais de bolo alimentar costuma provocar ânsias. Não é mesmo assim?

Pois é. Pés e/ou mãos sujos pelos rejeitos orgânicos da alimentação compõem uma cena repugnante. Entretanto, esses membros, que estão à nossa vista, são relativamente fáceis de se lavar, a pele que os reveste é relativamente lisa, “esticada”, as reentrâncias são praticamente inexistentes. Bem ao contrário do esfíncter que limita a última porção do nosso reto. A localização desse “anel” no corpo humano torna o acesso a ele um tanto dificultoso para seu dono. Alcançá-lo por si só impõe um certo malabarismo a que comumente nos acostumamos desde a mais tenra idade. Não é raro, no entanto, no aprendizado desse malabarismo, se repetirem aquelas cenas repugnantes de que falávamos há pouco.

Contudo, essa região pouco acessível e cheia de rugas e de reentrâncias, umbral responsável pela contenção e pela liberação da matéria orgânica pastosa (se tudo está bem) que nosso corpo excreta, essa região muito frequentemente não recebe das pessoas a mesma atenção que áreas mais à vista, como as mãos ou os pés. De maneira bastante paradoxal, se, por acidente, alguém tem sua(s) mão(s) ou pé(s) sujo(s) por fezes, o asco faz com que essa pessoa se apresse para limpá-los, com requintes de higiene e zelo, se possível; mas, para grande parte dos casos (me arrisco a dizer), esse mesmo alguém aprende desde criança a, depois de defecar, apenas “limpar” seu próprio ânus com um punhado de papel seco.

Trocando em miúdos: boa parte da população mundial “lava” os próprios pés e mãos se estes entram em contato com o cocô (o seu mesmo ou o de outrem) mas, por outro lado, essa mesma população apenas “limpa” o cu, que necessariamente envolveu a própria merda!

Nojento ou não, não há dúvida: isso é uma prática cultural.

Então, se você teve paciência de me ler até aqui, merece toda a minha honestidade, desnuda de qualquer sombra de solércia: tem muita gente de bunda suja por aí se preocupando mais com a bunda alheia. Se cada um cuidasse da própria, todos já seríamos pessoas muito melhores.

Isso também pode se tornar cultural. E mais: genuinamente religioso.

Pensando bem, talvez o próprio Deus esteja desde sempre tentando nos dizer isso.