sábado, 19 de maio de 2012

Folha seca




Dia desses, plena terça-feira, cansado do corre-corre cotidiano, resolvi atravessar a rua e parar. A rua, neste caso, era uma rodovia bastante movimentada, uma das mais do país, a BR 101, a poucos metros da minha casa. Há poucas semanas ouvi falarem da revitalização daquela região, que, durante muito tempo fora só o pedaço de terra que o asfalto da estrada não cobrira, depois passou a ser só o lado de lá da estrada, depois a favela que tinha na frente do shopping novo construído do lado de cá da estrada. Moro do lado de cá. Sou vizinho do shopping. Um emergente...
         O lado de lá já teve seus tempos de glória. Era freqüentado por artistas e tudo. Gente de nome. Já ouvi até sobre um cação que viveu na década de sessenta nas águas dessa prainha do final da Baía da Guanabara e vez ou outra se alimentava dos pescadores da região, que estavam aterrando o manguezal ali existente, até que um desses homens, mais forte, mais corajoso, ou só mais maluco mesmo, acabou se atracando com o bicho e o matou a facadas.
Eu lembrava essa história olhando aquela areia suja e a lama negra da margem que a água preta tentava esconder. Às três horas da tarde o sol realça a cor de tudo. Tudo brilha mais quando se está à beira-mar com esses dois caminhos dourados diante dos olhos: um na água, quente, se alargando até o horizonte; outro, na garrafa, gelado, se infiltrando até a corrente sangüínea. O verde das folhas da imensa amendoeira reluzia. A fachada do shopping cintilava seu azul espelhado. Carros corriam no asfalto ao lado numa pressa infensa ao balanço preguiçoso dos barquinhos ancorados ao sabor das marolas. Num carro, estacionado como eu embaixo da amendoeira, funk no volume máximo – tortura para um canário melancólico, piando de sua gaiola, com inveja dos acordes livres do sabiá-laranjeira vizinho só de galho. A árvore oferecia sua sombra a homem, bicho ou coisa, sem distinção, e um grupo de jovens cães magrelos brincava também ali, sobre restos de frutos decaídos. Só pararam quando um dos quatro carteiros – uniformizados, sentados e bebendo a terceira pet de guaraná – arremessou uma das garrafas vazias contra eles, que se assustaram e correram.
           Então percebi uma estranha silhueta vindo do mar. Um ideograma, espécie de agá mal-traçado sobre base mal-feita. Seria o ícone da solidão sem o alento de uma chegada; era um velho pescador voltando de um dia no mar. Seu barco não lhe proporcionara abrigo do tempo, e a magreza carcomida dos dois denunciava o quanto. Deu suas últimas remadas cabisbaixo, como podia ser. Saltou para a água, pegou a corda amarrada à proa da pequena canoa, puxou-a para a areia, prendeu-a, e começou a recolher o que no barco havia: uma caixa de isopor velha e quebrada, uma rede rasgada – logo devolvida ao lugar de origem –, e um saco preto pouco menos que vazio.
         Sua chegada agitou o cenário. Algumas garças, alheiamente pousadas lá e cá, lançaram-se em vôo apressado na direção do suposto alimento fácil. O velho caronte xingou alto, se queriam peixe, que usassem as asas, fossem pescar bem longe dali, talvez tivessem melhor sorte que ele. Gritou isso enquanto jogava o conteúdo da caixa sobre a areia, impregnando de imediato o ar: eram suas iscas, apodrecidas sem terem cumprido seu propósito.
        O cheiro forte de carniça não afastou as garças, mas atraiu um gato enorme, até então longe o suficiente para estar a salvo dos cães afugentados pelos carteiros. Destro, aproveitou a oportunidade e disparou rumo aos restos de isca lançados fora pelo pescador, causando, aí sim, a revoada das brancas aves. Contudo não durou a supremacia do bicho: urubus, naturalmente atraídos por matéria putrefata, precipitaram-se sobre o petisco, dispostos a desconvidar o felino ou, à sua resistência, a tê-lo como prato principal. Um tronco jogado a um canto foi seu o refúgio das bicadas.
            Por ironia, os carteiros prenunciaram a mudança seguinte: os cães expulsariam os urubus.
O velho se aproximara pedindo aos carteiros uma das pets vazias. Foi até a birosca que servia a todos, conseguiu um pouco de água da bica para beber, e voltou reclamando delas: a do bar, quente; a do mar, suja. Nada mais podia viver ali, seu moço. Acabou. Era lixo pra todo lado. Lá no meio da Baía, um óleo só; perto das ilhota, onde antes se pegava muito peixe grande, só tinha saco plástico, pedaço de pau, sujeira. Pensar que tinha até boto por ali. Os homens concordaram. Era triste mesmo. E se olharam, um tanto constrangidos com a embriaguez do pescador. Ele se afastou, reclamou um pouco mais, despejou o resto da água na areia encardida, e jogou a garrafa vazia no mar.
Neste instante uma folha seca caiu da amendoeira sobre a minha mesa, ao lado do meu copo. Quase sorri, mas apenas pedi a conta, paguei, saí, e atravessei de volta a estrada, pensando se tudo está mesmo consumado.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

CARNAVAL, ou POEMA DAS SETE CARAS




Calma. É a quinta escola a desfilar, dá tempo. Lado ímpar, perto do “Balança-mas-não-cai”. Engraçado o nome do edifício. Sugestivo. Fica na Av. Presidente Vargas. Pega o metrô na Tijuca, desce na Central do Brasil... Cuidado com a carteira, Antônio! Não vai se distrair, hein! Olha a responsabilidade. Segue a multidão. Multidão??? Multidão. Será que vale a pena? Pela TV sempre foi tão bom, tão tranquilo. A almofada de travesseiro já nem deixa mais sentir aquela mola solta do sofá gasto no lugar cativo. Gasto, mas que ainda dá um caldo. Essa sua mania de TV... Foi ela, a maldita mídia que colocou na sua cabeça essa ideia maluca de desfilar em escola de samba. Isso é coisa de maluco. Melhor voltar pra casa, vai. Lá vem o metrô. Será que está cheio? Já está cheio. Antônio, o celular tem que ficar no bolso da frente! Todo mundo sabe que o celular deve ficar na bolsa ou no bolso da frente, Antônio! Sai da porta! A fantasia de malandro veio a calhar, a calça tem bolsos.  Segura aí! Está cheio mesmo. Já não cabe mais ninguém e ainda tem gente entrando, e com saco de fantasia. Esse monte de penas vai acabar atacando sua rinite. Falta pouco, duas estações. Atchim! O antialérgico ficou em casa. Trouxe o cartão do plano de saúde? Na carteira. Ela ainda está no bolso. Não custa se precaver. Quando a gente menos espera é que as coisas acontecem. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. AAAtchim!! É a próxima estação. O celular vibra no bolso. Vaaai tocou. Pour Elise. Essa não! Rápido, o identificador de chamadas!!! Já era. “MAMAI”... “MAMAI”... “MAMAI”. “Aêêêêêêê!!!!!!!!!! MÃMÃ-MÃMÃ-MÃMÃE EU QUERO!!!... ...” … ... Central.


Certo. Concentração. “Balança-mas-não-cai”. É logo ali. Quanta gente na rua! Onde está o celular? Aqui. Carteira? Certo. Tem que prestar atenção, não é só alegria não. Tem gente mal intencionada em todo lugar. Cuidado. Não se pode perder o tino por uma distração. Dizem que esse negócio de caipifruta é gostoso. Parece que quase não tem álcool. Uma só não vai fazer mal, né? Quanto é, cidadão? Cinco? Credo! Toma lá. Doce... Geladinha... Quase suco. Será que aquilo era sidra mesmo? Põe um pouquinho mais de sidra aqui, por gentileza! Tá bom, obrigado. Água não era. É muita gente. “Ingressooo, ingressooo!”. “Ôô espetoo!”. Será que na saída vai estar todo esse movimento? E a condução? Até que horas vai funcionar o metrô? Táxi no final do desfile deve custar uma fortuna. Tava boa essa caipifruta, pena que acabou. Eles colocam mais gelo que qualquer coisa no copo. Cinco reais por gelo com um pouquinho de fruta, um fiapo de leite condensado e um copinho de sidra. Absurdo. Que carro lindo! Acho que é da Mangueira, a Mangueira é que faz carros bonitos assim... Olha esse! Nossa... que trabalho!! É coisa de artista, mesmo... Cheirinho bom de churrasco. Tem gente que mata gato pra fazer churrasquinho e vender nesses eventos. Coitados dos bichinhos. Mas aquela senhora ali tem cara de que gosta de gato. Quanto é o espetinho, senhora? Cinco? Trocado só tenho quatro. Dois por oito? Tá bom. Como assim a senhora não tem troco? Tá, pode ser uma latinha pra fechar doze. Capricha na farofa.


“Cervejinha, chefe?” Claro. Aquele churrasquinho tava meio salgado. Tava gostoso, mas meio salgado. Vai ver que era a farofa. Também, com esse calor, só uma cervejinha mesmo, Toninho. Tu tá suando, tem que se hidratar. Tá quase na hora. Mas ainda não pode entrar na concentração. Só depois que a outra escola sair. Aí vem a sua Mangueira. Vão posicionar os carros, depois as alas... Aí vai ser aquele tapete verde-e-rosa. E o surdo-um. Ah!, o surdo da Mangueira... Uma batida, sem resposta. Ecoa no peito. Parece que tá lá dentro. A respiração acelera no ritmo. Será que o Jamelão vem de novo esse ano? Vozeiraço...  Ih!, aquela moça da novela... Bonita ela. É, Toninho, tu não tá morto não, né? Nem cego. Foi só dar uma saidinha do casa-trabalho-casa-trabalho-casa pra se engraçar. Olha aí o Balança! Ainda falta uma hora pra abrirem o portão da concentração. E tá quente. O pessoal em casa deve de tá estranhando. Até agora tu num voltou? Bah! Mais uma, então! Só por isso. Surpresa!! Toninho com latinha na mão! Haha! Aí, garota bonita da novela, saca só: “Toninho e você: tudo a ver!” Tá meio quente essa aqui. Tem que beber logo. Também, esse calor!


Caipirinha??? Caipivodka!!!!! Castigaê, companheiro! Dá duas logo. Lá dentro não pode vender bebida. Pouco gelo, hein! De onde vem essa batucada? Que carro alto! Tira a camisa, Tunico! Calor do cacete! Segura meu copo aí, parceiro! Só um minutinho. É, é caipivodka, sim. Pode, claro!! Tá fraca?? Se tu arranjar, pode, lógico. Hahahaha!!! É da purinha? Rrrrrrrrr! U-huu!! Tamo na mesma ala, né? Maneiro!! Cadê?? Onde, onde, onde?? Hhumm! Gosssttttoosa, né não? Chegaê, mano! Tamo junto!! Vamo concentrá! Olha o Balança aí, gente! Hahahahahahahaahah!!!!!!


Cachaça, cara! Ca-cha-ça!!! Completaí, cumpádi! Garrafinha macetosa... Vô comprá uma pra mim. Dá pra dichavá legal dentro da rôpa. Mas pu-ta-quiu-pariu! Funk nomeio do carnaval? Desliga esse som aí, cacete!!! Quê???? Pão com patê? Me amarro, mandaê! Fígado de galinha? ... Hahahahahah!! Atum!!!! É ruim, hein! Fígado!!! A bateria já tá esquentando... Ó o surdo, ó... Tá aqui, muleque! Tá aqui no peito! Espera aí, conheço esse cheiro! Cadê o baseado, parceiro? Dêxa eu dar dois aí! “Balançaí,  mas num cai não, hein, muleque!”


Calmaê, calmaê! ... Cavaco?? ... Cavaco. Cavaco! Cava... “MANGUEIRA TEU CENÁRIO É UMA BELEZA/ QUE A NATUREZA CRIÔÔÔ!” U-huuuuuuuuuu!!!!!  “O MORRO COM SEUS BARRACÕES DE ZINCO...” Hhahahahahahahahahaha!!!!!!!!! É o Jamelão, maluco! É a minha Manguêra, mané!! Chegôô!! Chegôôôô, a Manguêra chegôôô!!!  Aêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê!!!!!!!!!!!!! Quê?!?!?! Eu???? Eu sou o Tom, mané! O Tom da Manguêra!!! Chegôô! Chegôôôô, a Manguêra chegôôô!!! U-huuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!!! “Olha o alinhamento, Tom!!” É o caraaaaaaalho!!! Chegôôôô, a Manguêra chegôôô!!! Ficar na linha é o caralho!!! É carnaval, caralho!! Na linha é o caralho!!!! Foda-se a linha!!! Chegôô! Chegôôôô, a Manguêra chegôôô!!! U-hhuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!!!!! Bompracaraaalhooo!!!! Bompracara..ah...aaah!!


“Bonito... CTI... Cerveja, caipirinha, cachaça, cigarro... Cigarro, Antônio. Até cigarro! Que cabeça, a sua! Onde é que você tava cua cabeça, homem de Deus! Depois de velho querê pular carnaval! Você nunca foi dessas coisas. Eu sabia que isso não ia acabá bem. Mas num adianta, né? A gente fala, aí 'é chata', 'qué mandá', 'é igual à sua mãe', 'é isso', 'é aquilo'... Mas é isso aí, ó: você não tem cabeça. Você não tem personalidade, Antônio! Se deixa infruenciá pelos outro. Mariavaicuasoutra. E agora? Amanhã é quarta-feira de cinzas, cabou carnaval. Cabô. Comé que cê vai trabalhar amanhã? Já pensou nisso? Já pensou se seu patrão te manda imbora? Já pensou? Imagina só que desespero. Seu salário é uma mixaria, mal dá pra gente comê, mas é o que se tem, né? Se você for demitido eu vou pacasadamiamãe cuas criança. Quê? Que que você qué, homem? Peraí. Não pode tirar a máscara não! Você pricisa do oxigênio, Antônio! Fica cua máscara! Fica!... Quê?... Quê???” Me chama de Toninho, por favor.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Iron and stones, flesh and bones




To be or not to be: that´s the question.
Hamlet (William Shakespeare)


Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
Carlos Drummond de Andrade


Só ontem pude assistir ao fantástico filme “A dama de ferro” (“The iron Lady”), de Phyllida Lloyd (2011). Não sou um especialista em cinema, nem mesmo chego a ser cinéfilo, apenas gosto de um bom filme. E uma coisa naquele me fez querer pensar: a extraordinária humanidade que a atriz Meryl Streep deu a Margaret Tatcher, a personagem principal. O olhar cambaleante, senil e débil da Margaret de Streep torna evidente, para o observador um pouco mais atento, o rastro cada vez menos firme de uma Tatcher a que Meryl também soube dar o devido peso.  Que não era pouco.
Devia ser muito difícil para a ex-chanceler britânica estar naquele lugar. Só mesmo sendo de ferro, eu acho. E com o coração de pedra. Sim; é a combinação perfeita para fazer exclusivamente o que deve ser feito, não se deixar levar por emoções, saber dosar a sensibilidade, e, sempre que necessário, pender o braço da balança para o lado da razão pura. Tem muito bobo por aí – e por aqui também, claro – acreditando que esse seja o caminho mais curto para o sucesso. Sem dúvida é também essa a mensagem que transborda da tela.
Nossa sede por ser assim, “de ferro”, às vezes é saciada por algumas simples – mas sempre neuróticas – catarsezinhas pós-modernas. Assistindo, por exemplo, a “Os vingadores” (“The avengers”, Joss Whedon, 2012), é difícil não simpatizar – no rigor etimológico do termo – com o “Homem de ferro”. O personagem parece estabelecer com o público uma interessante cumplicidade. Suas arrogância e veia sarcástica provocam mais euforia do que seus feitos bélicos; seu poder econômico é metonímica e definitivamente mais destruidor do que todo o arsenal em sua armadura; e a posse dos dois – dinheiro e armas – dá ao senhor Stark o invejado direito de “dizer o que quiser”, de ser “politicamente incorreto” a seu bel-prazer.
No entanto, a neurose da vingança contra um mundo que nos exige sermos cada vez mais ferrosos se mostra e se estilhaça, na obra de Lloyd, no confronto com o olhar perdido da mulher que, como poucas pessoas na História da Humanidade, viveu de forma maiúscula a diabólica e tão humana fantasia de se tornar sobre-humanamente imune à dor, ao cansaço, à solidão, ao remorso... Nele, naquele olhar, esvai-se o sonho coletivo de sermos todos uma única espécie de ultra-Deuses, maiores que o “super-homem” de Nietzsche, excelsos filhos gêmeos da Dama de ferro de Meryl Streep com o Iron Man de Robert Downey Jr.
Porque, na verdade, não queremos ser assim. E, pensando bem, ainda bem! Nenhuma das sete maravilhas do mundo antigo, por exemplo, era de ferro (o Colosso de Rodes era de bronze); entre as de pedra, só a Grande Pirâmide de Gizé ainda sobrevive – ela que, por ironia, foi concebida para ser um túmulo. O “ferro” do Titanic há cem anos apodrece no fundo do mar, junto com toneladas de desejos megalomaníacos. E, segundo li em algum lugar, o derretimento da estrutura metálica das torres gêmeas do World Trade Center foi fator determinante na transformação do símbolo do poderio econômico norte-americano num amontoado de escombros, em 11 de setembro de 2001.
Eventualmente queremos ser de ferro e de pedra apenas porque deixamos de perceber (ou ainda não aprendemos a fazê-lo) que é a nossa frágil carne quem acaba por sustentar todo esse perverso delírio de falsa grandeza. É ela que sofre com a frieza dos apertos de mãos pérfidos do dia-a-dia, que suporta o castigo do trabalho estafante por anos a fio. Nossos ossos não se partem diante das humilhações a que frequentemente tantos de nós temos de nos curvar, e nem os incendiários humores da indignação, principal combustível de várias revoltas na História do Homem sobre a Terra, nem eles podem derreter a meticulosa estrutura que nos mantém de pé.
Por tudo isso, depois de pensar um pouco sobre “A dama de ferro” da dupla Lloyd e Streep, me sinto meio em dívida comigo mesmo. Acho que já chega de querer ser de ferro. Quero rir, chorar, assumir que às vezes me sinto só em meio a pequenas ou grandes multidões. Reivindico, inclusive, o direito de usar clichês banais e legítimos, como o que acabei de evocar. E eu quero a minha mãe! Porque, no final das contas (exceto, talvez, para elas, nossas mães), não passamos disso: estranhos mamulengos no grande circo universal do lugar-comum, seres humanos “de carne e osso”, encenando sorridentes o teatro do “todo dia a lesma lerda”.
Pensar assim não tem nada de pessimista, conformista ou pequeno. É, sim, uma maneira de tornar menos dolorida a descoberta de que, não importa o que se faça, homens e mulheres de ferro só podem mesmo existir no cinema. Fora das telas, nem “iron” nem “stones”: só “flesh and bones”. E lambo os beiços!         

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A herança rítmica do intérprete





O título deste texto é uma quase-paráfrase do que dei a um outro, científico, publicado
recentemente pela Revista Boitatá (do Grupo de Trabalho de Literatura Oral e Popular da
Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística – ANPOLL - disponível em <http://www.uel.br/revistas/boitata/volume-12-2011/B1214.pdf>). Naquele, bem como em outros textos oriundos da pesquisa de doutoramento que desenvolvo atualmente, assumi o risco de relacionar a voz dos intérpretes de sambas-enredo das escolas de samba do Rio de Janeiro a uma herança mítica que os eleva à condição de poderosos heróis sobre-humanos, de semideuses, como Orpheu e Íon – ambos filhos de Apolo, o deus da Arte na mitologia grega. O fio condutor para desenvolver esse argumento foi a observação dos “gritos de guerra” desses cantores à frente de suas escolas num momento crucial do desfile oficial. Naquele instante, o cantor está com o microfone nas mãos e absolutamente só, em meio a milhares de pessoas que aguardam o soar do chamamento definitivo para uma batalha de sorrisos, suor, gozo... e cifras, não se pode esquecer.

Entretanto, por mais técnico e teórico que seja, um trabalho como esse sempre acaba
levando o pesquisador a descobertas práticas – subjetivas, até – antes impensadas na frigidez do escritório perfumado por livros e naftalina. Comigo não foi diferente.

Quando comecei, nos últimos dias antes do carnaval, a procurar espaço na agenda
superlotada desses artistas para uma entrevista rápida, “de, no máximo, 20 minutos, para minha pesquisa”, eu dizia, fui acolhido por três das vozes mais potentes, bonitas e respeitadas da Sapucaí: Dominguinhos do Estácio, Neguinho da Beija-Flor e Vander Pires.

Não vou ficar aqui tietando nenhum dos três. O valor deles é incontestável, e seria chover no
molhado falar de seu talento musical ou de sua excelência vocal. Eu poderia, é claro, tentar dizer o quanto Dominguinhos foi amável e colaborativo com minhas intenções, revelando-se uma verdadeira enciclopédia do samba diante de um fã boquiaberto... Mas não vou. Certamente eu deveria procurar ser mais grato, e retribuir parte da simpatia com que Neguinho (e família) me recebeu(eram) em sua casa, demonstrando a mais legítima “simplicidade de um rei” (para citar o enredo campeão de 2011 da sua escola, Neguinho)... Mas, que pena!, também não vou poder ser tão virtuoso assim aqui. Tampouco vou falar do Vander Pires, cuja explosão vocal, na quadra do GRES Porto da Pedra ou na Sapucaí, tanto contrasta com a placidez melodiosa de sua voz nos bastidores.

Só não dá pra deixar de falar é no filhinho do Vander. Ali está, sem a menor sombra de
dúvidas, um herdeiro do ritmo: um sambista nato. Nele dá pra enxergar aquele sentimento bom que toma conta da gente que gosta de samba até a raiz dos cabelos, de quem tem tamborim, caixa, cuíca, surdo, cavaco e viola no DNA; de quem sonha acordado e dançando ao som de uma bateria – real ou imaginária, tanto faz. E é disso, através do exemplo daquele menininho, que quero falar aqui.

No dia em que conversei com o intérprete da Porto da Pedra, na quadra da escola, eu havia
visto – e registrado, obviamente – algo inusitado. Devia haver três ou quatro mil pessoas naquele que seria o último ensaio antes do desfile oficial. Vander subiu ao palco acompanhado pelo filho (como o vi fazer todas as vezes em que acompanhei os ensaios da agremiação de São Gonçalo), e, justamente no momento do grito de guerra, ele passou o microfone para o garoto. Ver a desenvoltura do menino diante do desafio só não foi tão surpreendente quanto assistir à resposta daquela multidão ao seu eventual e inesperado comandante. Acho indiscutível que a vozinha aguda, logicamente infantil, de uma criança de 4 anos não tem o mesmo potencial agregador que a de um puxador de samba profissional (perdão pela blasfêmia, mestre Jamelão!). Ainda menos se a comparação se faz tomando por base um timbre conhecido e diferenciado como é o caso do pai dessa criança. As pessoas cantaram junto com o menino por simpatia, por achá-lo carismático, desinibido etc, etc, mas não por conta do apelo, digamos, semiótico de seu “brado”.

Mas também não é isso que importa aqui. O que vale mesmo é conseguir visualizar, naquela
cena, mais que o pedido, a sentença: “Não deixe o samba morrer! Não deixe o samba acabar!!” Vendo cenas como aquela a gente tem a certeza de que o samba não vai acabar. Nunca! Aquele menininho poderia estar dormindo, brincando, vendo televisão em casa, ou mesmo assistindo passivamente ao trabalho do pai. Mas não: estava ali, participando ativamente de tudo, estava efetivamente ensaiando.

Ensaiando para ser intérprete de sambas-enredo? Quem sabe? Eu não sei. Mas tenho fé
numa coisa: ali está se formando um sambista. E, daqui a uns anos, ele será um dos bons. Terá no corpo a ginga e a malandragem de quem respira em compasso sincopado. Não faltam exemplos disso: Diogo Nogueira, Martinália, Arlindo Neto... Sem falar em Paulinho da Viola, que cresceu ao som dos acordes do violão de seu pai, César Faria, do bandolim de Jacob, do saxofone de Pixinguinha...

E lá vamos nós nos ligando a semideuses... É ou não é uma herança heroica, mítica? Ou
alguém aí duvida que esses baluartes do samba que citei tinham uma sensibilidade musical
superior? Como explicar, no Brasil racista e preconceituoso da virada dos séculos XIX/XX, um fenômeno artístico como Pixinguinha? De onde veio todo aquele potencial? Dom? E não é assim também que se explicam os milagres? E milagres não são divinos? E será mesmo que eles se transmitem geneticamente? Ou por contato? Ufa!! Quantas perguntas!!!

Mas ainda assim é possível nutrir grandes esperanças! Afinal, sendo filho de quem é, e
frequentando os ambientes que frequenta, dá até pra esperar que um dia, daquele gurizininho sem nenhuma vergonha (no melhor sentido possível), vai surgir, se Deus quiser!, uma outra voz que nos encante e arrepie, como há tantos anos fazem as de Vander, Dominguinhos e Neguinho. Que nos faça sonhar, como sempre tanto pôde nos fazer a de Jamelão, a voz do samba.
Tô de volta, gente!! Vamos começar a agitar isso aqui!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Inteligência, antropofagia e coisas afins



Produzir um texto em linguagem verbal, escrever, é uma tarefa simples. Escrever bem, nem tanto, admito. Pensando nisso, e para ser coerente com minhas convicções, sempre procurei propor aos meus alunos  de Redação atividades que fizessem com que eles percebessem a diferença entre uma coisa e outra. E que, claro, optassem pela segunda.
Uma vez propus que escrevessem uma dissertação sobre o seguinte tema: “A inteligência é antropofágica”. Antes eu havia conversado com eles sobre a minha concepção de inteligência, sobre o conceito de antropofagia para o Modernismo brasileiro, e sobre como era natural ao homem a prática da observação do comportamento de seus semelhantes a fim de aprender-lhes as maneiras e os hábitos que os fizessem ter sucesso nas mais variadas tarefas do dia-a-dia. Disse aos meus alunos que isso é, inclusive, o que nos diferencia dos demais seres vivos: o fato de sermos todos antropofágicos – a maioria de nós apenas do ponto de vista metafórico, graças! Ou, simplesmente, seres culturais.
Entretanto, naquela ocasião eu tive a impressão de que era necessário ser um pouco mais didático. Eu teria que me colocar na posição de um candidato no vestibular para tentar me aproximar do que ele, tenso, numa situação de prova, poderia facilmente articular para produzir uma boa redação, um texto que lhe garantisse a aprovação sem maiores problemas. Algo simples e funcional.
Foi aí que pensei: “quem será que considera ‘a inteligência’ ‘antropofágica’?” Sim, porque, se as pessoas não veem a própria necessidade de absorver o conhecimento de seus semelhantes, elas não têm por que serem antropofágicas. Então, há uma relação indissociável entre inteligência e antropofagia. Essa indissociabilidade merece ser explicitada.
 Esta seria a minha tese: “a inteligência precisa ser antropofágica”. Eu sabia que essa afirmação deslocava um pouco a que o próprio tema trazia, mas questionar o tema proposto também é falar dele. Afinal, da forma como eu imaginava minha hipotética redação, a assertiva “a inteligência é antropofágica” não seria negada, mas, sim, estendida, ampliada.
Assim, minha estratégia seria começar com uma definição rápida de antropofagia:  "a prática de um homem se alimentar da carne de outro a fim de adquirir atributos físicos e/ou psicológicos do indivíduo devorado". Seria conveniente mostrar a diferença entre esse conceito e o de canibalismo, bem como deixar claro que a antropofagia de que meu texto falaria teria um valor conotativo, ou seja, o saudável prazer de que todos nós podemos desfrutar de aprender com os outros, de apreender as virtudes de outrem, de se apropriar de qualquer conhecimento, e incorporar qualidades à nossa própria personalidade, enfim. Como, em maior ou menor grau, todos fazemos isso, esse seria meu primeiro argumento: "o ser humano é naturalmente antropofágico".
O passo seguinte seria lembrar que a espécie humana só evoluiu e sobreviveu à seleção natural porque foi capaz de aprender consigo mesma e com o ambiente em que vivia (e vive). A roda, por exemplo, foi inventada uma única vez, mas até hoje toda a humanidade usa, para os mais variados fins, o princípio de fazer um corpo girar sobre o próprio eixo com o mínimo de atrito possível. À produção do fogo se aplica idéia análoga: um aprendeu a fazer, e hoje o uso do raio laser é bastante corriqueiro. Aprimorar conhecimentos já existentes , encontrar soluções contemporâneas para problemas - às vezes - ancestrais é, com certeza, a mais distintiva das características de nossa raça, e aí estaria meu segundo argumento em favor da tese da  antropofagia cultural imanentemente humana.
Exposto como está aqui, ainda pode estar parecendo complicado, mas vejamos como ficaria uma virtual introdução para aquele hipotético texto: "Mais do que simplesmente ser, a  verdadeira inteligência precisa precisa ser  antropofágica. Quem não observa as virtudes e as abilidades dos outros querendo aprender com elas? Quem ainda julga necessário inventar a roda? Alguém que agisse dessa forma certamente não seria considerado inteligente". Tenho a convicção de que  a imensa maioria dos jovens vestibulandos brasileiros poderiam escrever algo parecido com isso.
A partir de então, retomar, em cada um dos parágrafos de desenvolvimento, um dos argumentos mencionados acima seria fácil. Seria como responder às perguntas feitas na introdução. A coesão estaria praticamente garantida pelo fato de que a referência aos argumentos tjá eria sido feita no primeiro parágrafo do texto, o que daria bem a ideia de um todo articulado de ideias.
A conclusão seria lógica: existe um vínculo indissociável entre inteligência e antropofagia. Esse vínculo nos permite afirmar que um indivíduo da espécie humana é tanto mais inteligente quanto mais antropofágico - no sentido previamente evocado e já esclarecido do termo.  O  próprio vestibular materializa essa conceção de mundo, afinal para que serve uma universidade se não para difundir o conhecimento acumulado e gerar o novo? Os vestibulandos são antropófagos postulantes declarados, e não acredito que os avaliadores das redações  nos vestibulares pensem de maneira diferente. Eles mesmos são componentes nessa imensa e atemporal engrenagem. 
Dizer essas coisas, assim mesmo, sem meias-palavras, "sem medo de ser feliz", seria uma fecho e tanto para meu texto. Eu aposto. Afinal, todos nós queremos ser (ou, pelo menos, parecer) tão inteligentes quanto  seja possível, não é mesmo? Incluam-se, aí, eu, você que está lendo este texto, e os avaliadores das redações, e discordar desses argumentos talvez significasse, para a maioria deles, negar a própria opção profissional, ou seja, ser incoerente com a própria história.  Isso não seria inteligente, ainda que a experiência mostre o quanto a incoerência nos alimenta o espírito...
Mas a relação entre inteligência e coerência já é uma outra história.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

LIBERDADE DE EXPRESSÃO!!!


Meus caros, o link abaixo nos leva à pagina do Comunica, um projeto da UFFS que visa estimular a prática de produção textual entre os alunos da universidade. Veja que bons frutos já temos: as pessoas estão efetivamente começando a pensar de modo crítico a realidade que as cerca.

Esse é o papel de uma universidade. Assim é que se promove a independência intelectual. Parabéns à Chaline Barbosa pelo ótimo texto!


http://projetocomunica.blogspot.com/2011/04/editais-do-programa-de-bolsas-2011-da.html?spref=tw