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Era uma vez (ou Um conto de fodas)

Era uma vez uma senhora de idade incerta e duvidosa chamada Democracia. Uns diziam que ela era muito velha; ela, por sua vez, sempre que perguntada sorria ambígua e afirmava ainda nem ter nascido de verdade. Certo é que a Democracia já tinha tido vários casos: Tribos, Impérios... e Repúblicas também, sem problemas com o gênero de sua eventual companhia.
                Não tinha se casado com ninguém, não tinha filhos. Cansada de se entregar e ser traída, ela havia resolvido viver de momentos. Carpe diem, dizia.
                Mas – como acontece com todo mundo – um dia a Democracia se apaixonou de verdade. Achou que daquela vez seria pra sempre. Era um garotão espadaúdo de nome Mercado. Falastrão, ele repetia a toda hora que era “liberal” e esse era seu maior “mérito”.
                Chegou de mansinho, acenou, flertou, mandou flores (artificiais), chamou pra jantar, dançar, e, quando a Democracia deu por si, eles já andavam de braços dados, como se fossem amantes desde sempre. De tão feliz, ela não percebeu quando a mesma história de seus amores anteriores começou a se repetir.
                Pouco a pouco o Mercado foi abandonando as pequenas gentilezas que pareciam ser-lhe tão naturais: já não deixava a Democracia entrar primeiro nos lugares, tomava-lhe a voz, começou a dizer aos quatro cantos do mundo que era ele quem arrastava aquela “velha decrépita” de um lado para o outro e que, sem ele, ela nada seria. Ela se magoava, mas, mesmo ressentida, assentia: era o jeito dele, impetuoso que só.
               Na esperança cega de enfim ser feliz para sempre, a Democracia se deixou engravidar. O Mercado até achou que aquilo pudesse ser vantajoso para os negócios da Família.
               Fizeram planos. Ela queria que a cria fosse feliz e dona do próprio nariz; ele exigia que fosse sagaz. Ela sonhava com beijos, abraços e netos; ele, com dividendos. Ela vislumbrava trocas de olhares cúmplices, toques suaves, carinho; ele só aceitaria olhos claros, pele clara e, claro!, que fosse um menino!
               Muitos anos se passaram – em gravidez assim isso não estranha – até que os primeiros sinais do parto se mostraram. Tensões, distensões, contrações, verdadeiras revoluções, e todos à volta, à espera do tão esperado filho da Democracia com o Mercado. Até que a criança coroou.
               Impulsivo, o pai se precipitou no vão das coxas da mãe e foi o primeiro a ver os cabelos escuros da criatura que vinha à luz. Dissimulou a contrariedade (ele esperava cabelos claros!), deu um passo atrás e ordem para que o Trabalho fizesse seu trabalho. O parto era lento, difícil.
               Democracia, que tinha vibrado muito com a visão dos cabelos negros de sua cria, ficou ainda mais radiante quando viu que o bebê tinha a tez morena. Mercado quase não conteve a decepção. Como assim não era uma pele branca?! Quando a criança enfim nasceu de todo, ele explodiu em cólera: uma menina! ME-NI-NA!?!?
               Sim, uma linda menina a quem a mãe, entre lágrimas, batizou de pronto: Equidade.
               Mercado não se conformava: gerar Equidade não estava nos seus planos! Ainda menos com essa cara tão pouco parecida com a sua, ariana. Deu ordem para que, mais forte, o Trabalho sufocasse a Equidade. A Democracia chorava e implorava que poupassem sua filha. Em vão. Tentou se levantar, mas estava cansada demais de seu esforço de tantos anos tentando mascarar os desmandos e a maldade do Mercado, e agora, depois de um parto tão custoso, não se sentia mais com forças para lutar.
                Mercado ficava cada vez mais agressivo; Trabalho estrangulava a recém nascida; diminuíam cada vez mais as chances de Equidade; desfalecida em seu leito, Democracia agonizava.
                Um aceno de cabeça do Mercado e entra em cena o derradeiro personagem deste conto de fodas: sentado até então num canto da sala de parto, braços cruzados, chapéu Panamá marfim enterrado na cabeça, charuto cubano enfiado na boca, terno de linho branco e brancos mocassins de couro nos pés, era o Capital.
                 Sem tirar o chapéu, sem deixar cair o charuto, sem amarrotar o terno nem manchar os mocassins, o Capital de um golpe desequilibrou o Trabalho, que caiu em cheio sobre a pequena Equidade e a sufocou de uma vez por todas. Com a outra mão, calou completamente o choro miúdo da Democracia.
                 Cuspiu agressivamente o charuto para o lado direito, escarrou para a esquerda e rosnou:
                 – Está tudo consumado.
                O Mercado por fim sorriu satisfeito.
                E juntos os três foram felizes para sempre: Mercado, Capital, e seu filhote, que os dois primeiros forjaram a partir da placenta antes arremessada ao lixo, e que com o fogo de dentro da terra cozeram, e que com as próprias mãos moldaram, e que por capricho lapidaram e entregaram ao mundo: o Fascismo.

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