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"Estrelas na terra", monólitos no ar




Já com muito atraso assisti, há poucos dias, “Como estrelas na terra” (do original: Taare Zameen Par. Direção: Aamir Khan. Índia: 2007, 2h 55min.), na íntegra aqui. É um filme essencial. Essencial para o desenvolvimento da Humanidade em todas as pessoas; mas, sobretudo, para a formação de profissionais da Educação. No momento atual de nosso país, ainda mais. Porque só será capaz de “ver e ouvir” “estrelas na terra” quem entender que a Educação não pode continuar a ser um improvável monólito no ar. E é exatamente isso que ela tem sido há séculos; no Brasil, pelo menos.

A história do encontro do menino Ishaan Awasthi com Nikumbh, seu professor de artes, seria apenas mais uma narrativa comovente de dificuldades superadas com esforço e boa vontade se não fosse um traço bastante peculiar: a despeito das aparências, nenhum dos dois é, na realidade, o protagonista da trama. Nela, o personagem principal é o próprio processo ensino-aprendizagem, seus pontos cegos, suas escarpas e paredões, sua dureza e sua evidente insustentabilidade à parte do chão.

Ishaan tem 9 anos de idade, é repetente do 3º ano do ciclo escolar e periga repetir outra vez a mesma série. Suas notas são muito baixas e o menino não lê nem escreve com a mesma desenvoltura dos colegas de classe. Família e escola creditam o quadro à falta de atenção, à teimosia e à indisciplina do garoto. Por isso mesmo, depois de supostamente aprontar mais algumas, ele é levado pelo pai para um internato, uma instituição especializada em “domar cavalos selvagens”. Lá o pequeno sofre castigos físicos, assédio moral de professores e colegas, e se deprime ainda mais.

Tudo que se vê até a essa altura do filme são pontos cegos do processo ensino-aprendizagem. Na escola, a sala de aula superlotada não permite ao professor enxergar as particularidades dos alunos, suas individualidades; em casa, Ishaan habita uma zona nebulosa que os olhos algozes e ocupados do pai não alcançam, o olhar terno mas desnorteado da mãe não divisa, a cumplicidade e a atenção legitimamente amorosas do irmão não delineiam. Em suma: ninguém vê o menino por inteiro; suas “peraltices”, suas notas baixas e as consequentes reclamações de professores e vizinhos impedem sua família de vislumbrar o quanto ele era especial.

A contratação temporária de Nikumbh pelo colégio interno evidencia para o espectador mais sensível as escarpas e paredões de que tantas infelizes vezes a Educação (não) se faz. As aulas de Artes – antes silenciosas, estáticas, temidas – passam a ser alegres, participativas, ruidosas –; o professor deixa de ser um ente opressor e passa a ser um promotor de libertação; os alunos já não são uma turba de celerados à espera de doma, são, agora, pessoas singulares com limitações e potencialidades, sujeitos em construção, como todos somos. Na prática pedagógica de Nikumbh, educação é terra plana, coisa chã.
 
O jovem professor vai além e demonstra que na efetiva docência não pode caber a indecência da exclusão: os pais de Ishaan e a própria escola também precisam aprender sobre a dislexia, o transtorno de aprendizagem com que o menino lidava, incompreendido. Ele viaja até a cidade da família e lá procura lhes fazer entender que essa condição não incapacita o garoto para nada, apenas exige compreensão e acompanhamento adequados. Discurso semelhante é repetido para o diretor da escola, a quem Nikumbh solicita permissão para mediar, ele mesmo, a aprendizagem do aluno, o que passa a fazer competentemente, até o desfecho da narrativa – previsível, mas não por isso menos comovente.

Então, que reflexões a história provoca em quem se propõe a pensar na Educação?

A certeza de que ainda é enorme o número de pais, professores, pedagogos, psicólogos... agentes educadores lato sensu, enfim, que, a exemplo de personagens de Stanley Kubrick (em “2001: uma Odisseia no espaço”), por absoluta ignorância, muitas vezes se surpreendem diante de um insólito monólito: a Educação. Para eles, ela é um imenso bloco de pedra muito afastado do chão, erguido a duras penas por eles mesmos (sem se dar conta). Quando conseguem, esses profissionais olham para o bloco com estranheza e desconfiança, e só fortuitamente se reconhecem vítimas da própria ignorância e medo; medo da incapacidade de compreender o quê, afinal, têm acima de suas cabeças, diante de seus olhos.

É esse o olhar apavorado da mãe de Ishaan em muitos momentos do filme, e do pai dele também, quando foge do colégio sem se dirigir ao filho que começa a ler. Entre os professores do internato (à exceção de Nikumbh, claro), fica ainda mais evidente o despreparo para lidar com a diferença. Para eles, formar pessoas é domá-las, é fazê-las repetirem fórmulas prontas de maneira acrítica, é reduzir e encapsular suas diferenças. Eles agem como operários de uma linha de montagem, imersos numa espécie de fordismo didático-pedagógico, numa contemplação pseudoascética egocentrada, fundada em imagens distorcidas de si mesmos e de seu próprio lugar no processo educacional.

Atitudes assim denunciam o imenso maciço de pedra em que a Educação se transforma sobre mãos e cabeças até bem intencionadas, mas despreparadas. E, infelizmente, não é nada raro encontrar pais e colegas assim. Para ficar apenas em dois exemplos, bastante atuais, inclusive: de um lado, entre pais e profissionais da Educação Básica no Brasil, há muitos que defendem o tal projeto “Escola sem partido”, a falsa certidão de nascimento do monólito que há tempos teimam sustentar; por outro lado, em nossas universidades, vive-se o “império do (currículo) lattes,” que tantas vezes cega professores e alunos de todas as esferas, tornando-os potenciais autômatos em constante busca por congressos, periódicos e publicações e bolsas...

Nos dois casos, não há espaço para a diferença, para a singularidade: a exclusão é a regra. E essa não é a Educação que buscamos; essa é uma versão mal acabada do Gigante Adamastor camoniano e, como tal, é preciso superá-la e ir adiante, encontrar as Índias.

Pois é delas, dessas Índias míticas, mas possíveis, que “Nikumbhs” e “Paulos Freires” nos acenam e gritam: “Venham cá! Sentem-se no chão com seus alunos, olhem-nos nos olhos, conheçam-nos! Aprendam e se divirtam com eles! É no chão de casa e da escola que a Educação se faz! E vejam como ela é macia, suave, leve, não há nada nela de monolítico, pelo contrário! Só se educa de fato quando se entende que todas as pessoas são terra fértil, basta descobrir com qual cultivo elas melhor se identificam”.

É por isso tudo, enfim, que “Como estrelas na terra” é um filme essencial para profissionais de Educação. Porque ensina que, se estrelas brilham entre nós, na terra, não pode haver em nós, educadores, o devaneio monolítico de voar.

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