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"PRIMEIRO MUNDO" é outro papo

                          Eu, Luciano Nascimento, sou heterossexual. E, embora eu não seja rico, seria cinismo de minha parte dizer que sou pobre. Portanto, da discriminação de gênero e da econômica estou mais ou menos livre. Mais ou menos porque, claro, eu ainda sou um fodido perto da maior parte da galerinha que frequenta Jóquei Clube em dia de Grande Prêmio Brasil de Turfe, por exemplo. Por outro lado, sou preto, baixo, tô ostentando uma barriguinha (que vive querendo deixar de ser diminutiva), uso óculos, não curto esporte nenhum, bebo um pouco e eventualmente fumo charuto. Ah!, importante: ou sulamericano. Por que esse inventário meio aleatório? Porque, exatamente como todo mundo, eu ser ou não ser vítima de preconceito e discriminação é algo que não depende de mim, mas, sim, de quem me olha. É quem me olha que me aponta “defeitos”; defeitos que estão na visão dele ou dela, claro! Repito: não há nada de errado (nem...

Agora é José!

A festa acabou: o escravo não veio a mucama não veio o palhaço não veio o silêncio gritou o crioulo falou a bola furou o circo partiu o pão velho mofou o antigo bolo – a crescer e então ser dividido – solou e tudo parou e tudo ruiu e tudo mudou! Agora é José! Nem se você gritasse? Nem se você gemesse? Nem se você tocasse a valsa vienense? Não. Agora é José! José que tem dente José que não mente José que é gente que sente, potente, que é inteligente e afinal entende o papel de mané indigente antes pregado à sua testa: não lhe presta, não lhe rende, só o vende barato. Chega! Agora é José! José orgulhoso José altivo José só de si cativo cioso e redivivo Moto-contínuo progresso impresso no rosto liso, sereno ou teso de todo e cada ex-qualquer-um que hoje bate no peito e diz: Agora é José!

Entre sem bater

Sou um professor. Sobretudo – mas não só – por isso, eu também me sinto violentado pelo governo paranaense. Violentado, reajo. Sou de Letras; não tenho formação acadêmica em Ciências Sociais, ou em Ciência Política, nem em História... Mas sempre tive muitos bons professores, tanto nos colégios por que passei, quanto nas várias instituições de ensino superior de que fui aluno. Além disso, já há alguns anos posso dizer, sem medo, que tenho a amizade e a consideração de alguns dos melhores professores (pesquisadores e/ou profissionais da Educação em geral, enfim) do país, espalhados por instituições como CPII, CMRJ, CEFET, Uerj, UFF, UFRJ, UFSC, UFFS, UFG, UFSM, UFMG, UFU, PUC-Rio, entre outras. Arrisco-me a afirmar, também sem medo, que esta minha reação – que, em grande medida, só é possível graças ao que aprendi com esses amigos – traz em si coisas com as quais eles concordarão. Sou alguém a quem ensinaram a ler. “Ler” numa acepção que vai muito além da decodificação dos sin...

Recadinho do andar de cima

Peço perdão antecipadamente àqueles que por acaso se sentirem agredidos ou nauseados com o apelo relativamente escatológico do meu argumento. Vou tentar compensar isso com uma também relativa formalidade linguístico-textual, um certo rebuscamento que, longe de ser índice de pedantismo, só pretende mesmo despistar um pouco os mais preguiçosos e/ou menos inteligentes. Feito esse introito pouco convencional, mas muito útil aos meus propósitos argumentativos, digo a que venho: falar de novo da polêmica chata e anacrônica (no sentido convencional, não naquele que a filosofia contemporânea emprestou ao termo) em torno do tema da homossexualidade, controvérsia hipertrofiada no Brasil das últimas horas por conta do beijo de Félix e Nico no capítulo final da novela “Amor à vida”, da Rede Globo. Eu poderia falar da miopia daqueles que, colocando em foco apenas o beijo entre aqueles dois personagens, se esquecem, por exemplo, do momento (isso mesmo: não foi um “ happy end ”, foi apenas um...

Brainstorming

Na noite escura o vento bate tuas portas e janelas abertas. Embarcação à deriva, vagas pelas trevas desperta pelos raios e trovões que vibram e te mantêm alerta. E teus olhos - vivos e singulares - investigam o interior de tua morada, o teu próprio, no afã de enxergar a luz que por fim só lá existe. "Fiat lux!" Finda a noite. Chega o dia, claro, nítido, Vivo. Livre estás. Em paz. A luz foi feita, e existirá (pelo menos) até a próxima tempestade.

Entre barcos e panelas de pressão, poesia

Esdruxulamente poético. É o que se pode dizer do cenário da prisão de Dzhokhar Tsarnaev, jovem de 19 anos, de origem chechena, um dos autores do atentado a bomba na maratona de Boston, em abril último. Depois de longa caçada, os policiais locais encurralaram o rapaz nos fundos de um quintal, ferido, dentro de um barco. Como há muito tempo acredito que na raspa do tacho de qualquer coisa sempre vem junto alguma poesia, não creio que com esse atual já-velho caso de violência pudesse ser diferente. Certamente era de ligação o místico Verbo que no princípio apenas “era”. “Sendo”, ele ligava os seres a suas singularidades. Singularidades poéticas, sem dúvida, escandidas num mundo inapelavelmente uno, paradoxalmente vário, e necessariamente transitivo. Intransitividade é invenção recente, nasceu rótulo gramatical; na vida real é a poesia que desde sempre atravessa tudo, súbito relâmpago ascendente, trovão luminoso. Muitas vezes os olhos não a veem, os ouvidos não a captam, o paladar en...

MÃE ÁFRICA

(Música: BENÉ LESSA e MÁRIO PEDRO; letra: LUCIANO NASCIMENTO) Das savanas, vêm Mandelas, mandá-las de todo porvir; das Bahamas, marleyanas memórias, kizomba, Zumbi; um mar de esperanças se "luthernizou": "I have a dream..." As mucamas já não são mais escravas do mesmo servir; de suas mamas jorra a linfa da bênção, o axé de Zambi; o sonho de um povo se realizou: "We´ve reached The dream!" Mama África, mama Loba, mama! Obá mandou bramar suas águas! A enxurrada de Obá mantém fortes os filhos que Mama Loba ama.